DONA EULA, A BATUTINHA DA CULTURA ALENQUERENSE
por Silvan Cardoso

Dona Eula, ícone cultural de Alenquer. (Fotomontagem: Silvan Cardoso)
Não se pode questionar que dona Eula é um ícone vivo da cultura alenquerense, especialmente quando se trata de eventos de épocas juninas. sua presença é marcante nas festas e arraiais por onde ela passa.
Sua ousadia e atitude são características notáveis de uma mulher que, apesar das dificuldades financeiras e de apoios, insiste em colocar nas quadras e nos terreiros de quermesses seus grupos para dançar.
Eula Martins dos Reis é
filha de dona Tereza Martins. Nasceu no bairro Luanda, em Alenquer (PA), no dia
06 de maio de 1958. Nos seus primeiros anos de vida respirou os ares luandenses
e a essência cultural do lugar.
Uma vida sem escolaridade
Aos 15 anos de idade, foi
morar na comunidade de várzea Vira Volta, na residência de sua avó Izaura
Martins, onde passou a se envolver com os costumes e as rotinas daquele lugar.
Foi um período de vida
comum, fazendo somente o que era necessário para sobreviver e conhecendo todas
as atividades que eram repassadas para ela, mas que precisava coloca-las em
prática.
Eula nunca frequentou uma
sala de aula e nunca teve à sua disposição uma professora formada, especialista
em alguma área, para que pudesse lhe dar as instruções necessárias.
Mas foi a sua prima Sandra
que a ensinou a ler e a escrever, para que pudesse pelo menos saber o básico, e
que para ela se tornou essencial no decorrer de sua caminhada.
Vida de agricultora e pescadora
Trabalho na roça
Sua adolescência e parte da
sua juventude foram períodos de muitos trabalhos para que pudesse adquirir o
necessário para se alimentar.
Eula trabalhou na roça, onde
plantava e colhia mandioca, melancia, milho, entre outros alimentos. Desde nova
já era acostumada ao trabalho bruto!
Aliás, ela também trabalhou
com juta. Não só plantava como também colhia e preparava as fibras para fazer
os fardos para comercializar. Eula é uma das pessoas especialistas na produção
de juta.
Pescadora de rios e lagos
Além de plantar, também
pescava, como até os dias de hoje pesca. Uma pescadora completa, utilizando
materiais como caniço, malhadeira, tarrafa, linha comprida espinhel, arpão,
entre outros.
Pescou em muitos lugares do
rio Amazonas, dos quais citou: Itacarará, Carobalzinho, Carobal Grande, lago
Cucuí, Sete Cavalos, entre outros.
Casamento e uma nova história de vida
Eula casou-se com 19 anos de
idade, tendo que voltar a morar na zona urbana. Nisso, passou a morar no bairro
Luanda, e teve com o companheiro sete filhos.
Viveu mais de 20 anos com o marido,
num relacionamento complicado e que não estava dando certo. Eula tinha sonhos
em sua vida, mas que eram impossíveis com a companhia que tinha ao seu lado.
Num relacionamento que a
privava de tudo, não podia buscar e alcançar pelo que tanto desejava para a sua
vida.
Depois de duas décadas de
uma convivência tóxica, separou-se e passou a morar no bairro Aningal, onde
mora até os dias atuais.
Além dos filhos biológicos,
dona Eula também adotou algumas crianças. Crianças que não tinham quem cuidasse
delas e que precisavam de um lar e de uma mãe.
Adotou algumas crianças e
aquilo a fazia muito feliz, em poder compartilhar um lar e do amor que tinha
para os seus filhos.
Afirma que “adota porque vê
a situação delas” e, garantindo que pode ajudar a cria-las, abraça-as com
firmeza, mesmo relembrando dos tempos difíceis vividos décadas atrás.
Grupos de dança: uma oportunidade de recomeçar
Certa vez, dona Ana, mulher
do senhor Osmarino, perguntou se dona Eula sabia conduzir um grupo de pastorinha
que ela tinha.
Pastorinha é um tipo de
dança folclórica natalina brasileira, de origem portuguesa, que tinha
encenações com personagens bíblicos.
Mesmo sem ter nenhuma noção
do que se tratava, disse que sabia e aceitou o desafio. Era uma vontade de Eula
liderar grupos de dança, e via naquela proposta uma boa oportunidade.
Dona Ana entregou para ela a
lista dos nomes dos personagens e o roteiro de como deveria fazer para conduzir
a dança.
Mesmo com dificuldades, já
que ela não tinha estudos e lia muito pouco, Eula tratou de estudar e ler tudo
o que estava escrito no papel. Mais do que isso: com boa memória, gravou todo o
roteiro!
Convidou muitas pessoas para
que a ajudassem a compor e a fortalecer o projeto, para se apresentarem nos
eventos que ocorressem pela cidade.
A sua primeira apresentação
com o grupo de pastorinha – e a primeira apresentação de sua vida liderando um
grupo – foi numa noite da festividade de São Cristóvão, de bairro homônimo, na
praça da igreja.
Sua presença na cultura alenquerense
Depois disso, ajudou na
fundação do grupo humorístico de dança Quengas do Barulho, do qual, segundo ela
afirma, foi a primeira presidente.
A primeira apresentação do
grupo Quengas do Barulho foi num evento realizado na rua Capitão Eugênio Marques,
em frente à sede do São Cristóvão.
Depois de um tempo, dona
Eula também ajudou na criação do grupo humorístico Foragidos do Manicômio, que
era formado apenas por brincantes homens.
Surge o grupo Batutinhas do Barulho
Certa vez, seus filhos
Luzenildo, o Pelado, Sandro e sua filha Sirlei propuseram que dona Eula criasse
um grupo de quadrilha tradicional. A proposta foi aceita e um novo desafio
estava por vir.
Foi então que dona Eula
criou o grupo de dança de quadrilha tradicional Batutinhas do Barulho, onde
viveria muitas histórias.
A primeira reunião do grupo
foi no quintal da sua casa, no dia 26 de julho de 1993, quando se organizaram,
fizeram os primeiros ensaios e planejamentos para as danças iniciais pela
cidade.
O primeiro grupo dos Batutinhas
do Barulho era formado apenas por brincantes crianças da sua família. Nas
formações seguintes que dona Eula precisou correr atrás de mais crianças e
adolescentes.
A idealizadora do grupo
afirma que o motivo de ter colocado nome “Batutinhas do Barulho” foi porque o
grupo quase sempre era formado por crianças. Logo, veio à sua mente associar a
palavra “Batutinha” a uma criança.
Batutinhas do Barulho além das fronteiras ximangas
No início, eram tantos
brincantes, que o grupo chegou a ter cerca de 70 pares, mostrando a dimensão
dos trabalhos feitos e da dedicação de dona Eula em ajudar na cultura
alenquerense.
Os Batutinhas do Barulho
chegaram a se apresentar décadas atrás no velho Matutódromo de madeira, onde
está atualmente o Centro de Eventos Ione Gantuss.
Em meados da década de 2000,
o grupo Batutinhas do Barulho, a convite do então deputado estadual
alenquerense José Megale Filho, foi para Belém para se apresentar.
Dona Eula recorda que o
grupo deixou na capital paraense um paneiro e um vestido. Um homem, que tinha
acompanhado as apresentações, queria comprar esses materiais, entretanto,
recebeu de presente do grupo.
Batutinhas, uma escola da cultura local
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| Dona Eula sempre acolheu as crianças que eram ignoradas por outros grupos. (Foto: Arquivo/Dona Eula) |
Com mais de três décadas de
história, dona Eula considera o grupo Batutinhas do Barulho uma “escola”,
enquanto ela é a “professora da cultura alenquerense”.
Tal afirmação é justificada
por ela porque muitas crianças e adolescentes já passaram pelo seu grupo.
Brincantes, inclusive, que eram rejeitados por outros grupos, bastante
exigentes, mas que dona Eula os abraçava e os acolhia.
Ela afirma, ainda, que
quando esses brincantes, antes recusados, anos depois eram sondados justamente
pelos grupos que não os queria tempos atrás. Mas ela negava cedê-los.
Foi no grupo Batutinhas do
Barulho que muitos brincantes e dançarinos, atualmente em grupos como Os
Extraordinários, Frescura no Beco e Arrastapé Luandense, começaram a dançar.
Dona Eula: simplicidade na vida, força da cultura
Dona Eula continua vivendo
uma vida simples, plantando, pescando e participando de quermesses e tantos
outros eventos juninos realizados por Alenquer.
Ela continua também indo de
casa em casa, atrás de brincantes, sejam eles experientes ou novatos, para
serem mais alunos de suas instruções e fazerem parte de sua história.
São décadas atuando e
participando de acontecimentos da cultura ximanga, dos quais 32 anos apenas do
grupo Batutinhas do Barulho, além dos outros grupos que ajudou a criar.
Apesar de não ter tanta
evidência como outras agremiações e pouco apoio financeiro, dona Eula,
acostumada a viver grandes dificuldades, mesmo com quase 70 anos de vida,
insiste a fazer cultura do seu jeito, mesmo que com pouca projeção de mídia.
O que importa pra ela é
fazer com que as coisas aconteçam e que a cultura continue com a sua contribuição
de muitos e muitos anos.


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Minha mãe !
ResponderExcluirOrgulho de vc ❤️