SARGENTO NINA: O MAIS ICÔNICO POLICIAL DA HISTÓRIA DE ALENQUER

 

por Silvan Cardoso 

Sargento Nina em junho de 2002 na delegacia de polícia de Alenquer - Fotos: Reprodução

Sargento Nina é até hoje o mais icônico policial militar da história de Alenquer. Sua atuação na segurança da cidade é inquestionável e, até hoje, lembrada pelas pessoas que testemunharam os trabalhos que ele liderou, tornando-se um exemplo de trabalho justo e honesto.

 

Seu nome ainda é citado quando se fala de segurança pública, de criminalidade e de falta de ordem, já que ele procurou, de todas as formas, colocar Alenquer no caminho correto.

 

Até mesmo pessoas que não eram daquela época ouvem falar do seu nome, como uma verdadeira lenda viva que, em pouco tempo atuando na sua cidade natal, tornou-se eterno em muitas lembranças, sonhos para alguns e pesadelos para outros.

 

Nilton Rodrigues Nina, o Sargento Nina, nasceu na cidade de Alenquer a quarta-feira do dia 24 de janeiro de 1945. Era filho do senhor Manoel José Nina e de dona Benigna Rodrigues dos Santos.

 

Embora tivesse nascido em Alenquer, Nilton não viveria por muito tempo na sua cidade natal. Viveu apenas os primeiros anos de vida. O que faz não existir lembranças da sua infância na cidade ximanga. Seu próximo destino de vida seria a cidade vizinha de Santarém.

 

Mudança para Santarém: escolaridade e primeiros trabalhos

A maior parte de sua vida foi em Santarém, mas sempre de declarou alenquerense

Com quatro anos de idade foi morar em Santarém. Morou inicialmente na avenida Marechal Rondon, depois mudou-se para a avenida Presidente Vargas. Parte de sua vida passou a ser nessa área de Santarém.

 

Estudou inicialmente no externato São Luiz de Gonzaga, com a professora Helena Bezerra. O externato ficava na avenida Presidente Vargas, entre as travessas Dom Amando e 15 de Novembro.

 

Depois estudou no colégio Álvaro Adolfo da Silveira, em seguida estudou na escola Nossa Senhora Aparecida e, por fim, concluiu o primário no colégio Rodrigues dos Santos. Estudou e aprendeu em escolas públicas, sempre demonstrando interesse e muita dedicação nos estudos.

 

Depois, passou a trabalhar na alfaiataria Centro da Moda, de propriedade de Robson Riker, onde também trabalhava seu aprendiz Raimundo Vilhena da Silva, o Almir, que teria parceria de trabalho com o jovem Nilton Nina.

 

Alfaiate Nina, em Santarém

Antes da carreira militar, Nina foi alfaiate.

Embora Nilton fosse apenas empregado da alfaiataria, o jovem não queria apenas fazer os serviços da empresa. Tratou de agarrar as oportunidades que vinham e Almir foi quem ensinou para ele as técnicas para trabalhar na função.

 

Aprendeu com tanta dedicação que ele passou a fazer a sua própria produção, tanto para Robson Riker como para Almir. Passou a ser conhecido com essa profissão em Santarém e ser solicitado pelos bons serviços que ele fazia.

 

O alfaiate Nilton Nina fez a sua alfaiataria na sua própria casa. Produzia e todo resultado de suas produções satisfaziam os seus clientes. Contudo, o jovem não ficaria limitado apenas nesse serviço.

 

Soldado Nina, início da carreira militar

Nina serviu na  1ª Companhia Independente de Polícia Militar (1ª CIPM), hoje 3º Batalhão de Polícia Militar (3º BPM).

Nilton entrou na carreira militar de forma tardia, com 27 anos de idade, em janeiro de 1972, ingressando na 1ª Companhia Independente de Polícia Militar (1ª CIPM), e que, oito anos depois, em 1980, seria denominado de 3º Batalhão de Polícia Militar (3º BPM).

 

Na época da 1ª CIPM, o Corpo de Bombeiros funcionava junto à PM no mesmo quartel, o que fez com que Nilton também se dedicasse para fazer o curso de bombeiro, expandindo ainda mais seu conhecimento militar.

 

Já como militar atuante, na década de 1980, soldado Nina fez uma passagem meteórica por Alenquer, para resolver algumas situações. Nesse tempo, sua presença foi despercebida e, assim, não ficou tão marcante.

 

Ainda fez curso em Belém, capital do estado, de operador de auto bomba (ou motorista operador de bomba de concreto), dentro da sua carreira militar e ampliando ainda mais os seus conhecimentos.

 

Missões de Nina: lugares por onde passou

Castelo dos Sonhos, um dos garimpos onde Nina atuou.

Soldado Nina não tinha dúvidas que queria seguir a carreira. Estava ainda na base da pirâmide militar. Muito tinha ainda para alcançar outras patentes. Mas para alcançar outros postos na hierarquia, além de estudar mais, teria que encarar muitas missões.

 

Nina precisou se deslocar para outras cidades do Pará e cumprir muitos objetivos. O maior deles era moralizar as cidades e manter a ordem no meio social. Muitas pessoas estavam se envolvendo no mundo do crime e isso prejudicava esses municípios.

 

A corrupção tornava-se maior no meio político e até mesmo no meio militar. Nilton Nina já estava preparado para combater tudo o que fosse desmoralizar uma cidade ou mesmo uma comunidade.

 

Além de Santarém, o jovem atuou em cidades como Itaituba, Altamira e Óbidos. Também foi designado a combater ações corruptas em diversos garimpos, como: garimpo Castelo dos Sonhos, garimpo do Rambo, garimpo do Cuiucuiú, garimpo Bom Jardim, garimpo Penedo, garimpo Batalha, garimpo Porto Rico, entre outros.

 

 

Cabo Nina: colocando Óbidos em ordem

Nina (na época era cabo) também marcou história em Óbidos.

Sua presença na cidade de Óbidos (PA) foi tão histórica, combatendo o crime e mantendo ordem naquela cidade, que, na época que era cabo Nina, sempre que chegava naquele lugar, era bem recebido.

 

Eram tempos de grandes desafios, na década de 1980, dos quais há 3 meses não se descobria alguns criminosos, que pareciam querer tomar conta do município e nada era resolvido.

 

Cabo Nina, que já tinha a confiança de seus superiores, trabalhou arduamente, investigando e fazendo todas as buscas necessárias, até finalmente capturar os criminosos e tornar o caso resolvido.

 

Com o objetivo alcançado na cidade obidense, o militar precisava seguir para outras missões. Mas suas atuações nesse município foram tão necessárias, que, ao retornar aquele lugar, os moradores o recebiam com um slogan pronto: “O Nina chegou, o escândalo acabou!”.

 

Sargento Nina: segunda passagem na cidade de Alenquer

Sargento Nina marcou a cidade de Alenquer em menos de dois anos atuando.

No final da década de 1990, a situação de segurança pública não era das melhores na cidade de Alenquer. A existência de gangues, que dominavam alguns bairros da cidade, estava ficando preocupante.

 

Contudo, para combater os criminosos, era preciso encarar a corrupção que não estava somente nas ruas. A necessidade de organizar as instituições também seria fundamental, para que os combatentes tivessem estrutura e equipamento para tal.

 

Na época, um delegado de polícia de Alenquer precisou sair de férias. Alguém deveria substituí-lo. Contudo, nenhum policial de Santarém queria ir até lá. Mas alguma coisa tinha que ser feito. Quem iria?

 

Foi quando Nina, que já havia alcançado a graduação de primeiro-sargento, prontificou-se para a missão. O então primeiro-sargento Nina, ou como seria popularmente conhecido apenas como “sargento Nina”, estava disposto a contribuir com sua cidade Natal.

 

Entretanto, o próprio Nina relata que muitos militares em Alenquer não queriam que ele fosse até lá porque acabaria com as possíveis malandragens e propinas que podiam rolar naquele lugar. Além disso, a baderna reinava em todos os cantos da cidade. E sargento Nina queria muito encarar esse desafio.

 

Combate às gangues de Alenquer

Perímetro da rua Capitão Antônio Monteiro Nunes, bairro Bela Vista, conhecido como "Pega-bunda". 

Os criminosos não tinham ideia da pessoa que estava chagando ao município ximango. Sargento Nina chegou à cidade para conhecer o ambiente e os colegas de trabalho. Mesmo com muita coisa para melhorar, tratou de iniciar os trabalhos.

 

Passou a realizar rondas por toda a cidade e a mostrar o porquê de ter se prontificado para essa missão. Os criminosos tinham os seus redutos bem posicionados para qualquer situação.

 

Muitos eram os grupos de criminosos da época: gangue do Terçado, gangue da Calcinha, gangue do Gapó, gangue Moleques da Praça, entre outros. Esses grupos conflitavam-se ou mesmo desafiavam as autoridades locais.

 

Um desses redutos era o conhecido “Pega-bunda”, que ficava na rua Capitão Antônio Monteiro Nunes, na ladeira depois da travessa Lauro Sodré, onde fica o bairro Bela Vista.

 

Bairros, como São Francisco e Liberdade, também eram fiscalizados com frequência, mostrando que o policiamento não estava para brincadeira. Os acusados eram capturados e jogados na viatura.

 

Não tinham muita cerimônia, principalmente quando os capturados se recusavam a seguir o que os policiais determinavam a eles. Recebiam tapas, quando necessário, e depois eram lançados no veículo policial.

 

Na área de mata, de propriedade do senhor Arteiro, na PA-427, conhecida hoje como “entrada e saída de Alenquer”, era frequente capturar jovens, em hora de meio-dia, utilizando e comercializando drogas. Era uma época onde quase não se tinha moradores por perto.

 

O caso do bar Samambaia

Esquina da rua José Leite de Melo com travessa Tiago Serrão, onde funcionou o bar Samambaia, de dona Jacira.

Um caso interessante ocorreu no bar Samambaia, no bairro Luanda, de propriedade de dona Jacira Araújo, no cruzamento da rua José Leite de Melo com travessa Tiago Serrão.

 

Era frequente serem realizadas festas todas as sextas-feiras no bar. Muitas pessoas iam às festas para se divertirem, mas outras iam para causar tumulto ou até atacar outras pessoas.

 

Sargento Nina chegou a desafiar alguns suspeitos que frequentavam aquele bar, dizendo que os esperasse lá e que a viatura passaria para captura-los. Sem demonstrar qualquer tipo de medo, eles ficaram esperando os policiais no bar.

 

Acontece que sargento Nina acabou adoecendo justamente no dia marcado e ninguém foi lá, para a surpresa dos suspeitos. Eles teriam imaginado que Nina estaria com medo, motivo pela qual não tivesse aparecido.

 

Conta-se que esses jovens usaram um programa de TV, através de um repórter da emissora, para declararem à população ximanga que sargento Nina estava com medo deles e que não iriam ser mais perturbados pelos policias.

 

Quando o sargento assistiu aquela declaração, imediatamente mandou um recado a terceiros, para que comunicassem aos envolvidos: “Avise a eles que, mesmo doente, com dor e febre, que irei busca-los! Diga-os, ainda, para me esperarem armados!”.

 

Contudo, ele já não queriam levar mais a sério as falas de Nina. Mesmo assim, foram ao bar no dia e hora marcada, só para provarem mais uma vez que o policial militar iria novamente fugir, outra oportunidade para mostrar ao público novamente a sua “frouxura”.

 

Quando menos esperaram, a guarnição chegou ao bar Samambaia, preparados para captura-los. Antes mesmo de reagirem, por todos os lados aparecerem policiais armados, com as armas apontados para eles. Imediatamente receberam tapas dos oficiais e foram jogados na caçamba da viatura.

 

Desta vez não teve mais reportagem de criminosos se vangloriando, chamando um policial de medroso. Na reportagem eles seriam os presos e a equipe policial é quem contaria como foi toda a história.

 

A lenda do pneu dianteiro da bicicleta

Ouviu sobre a história de que sargento Nina teria mandado tirar o pneu dianteiro de uma bicicleta?

Uma história muito comum em Alenquer sobre sargento Nina é que ele, ao ver um moleque empinando a dianteira da sua bicicleta, foi reprimido pelo oficial, que mandou os policiais retirarem o pneu dianteiro, já que ele não estava precisando mais do artefato para poder conduzir o veículo.

 

Entretanto, o próprio Nina desmentiu a história e afirmou que aconteceu sim um ocorrido parecido, mas não foi com ele e nem foi o pneu o que se retirou. Assim narrou o militar:

 

Um rapaz estava descendo a ladeira da rua Dr. Pedro Vicente, partindo do canto do hospital Santo Antônio sentido bairro Luanda. Já na descida, soltou o guidão e passou em alta velocidade na frente da delegacia de polícia. Já era comum a molecada brincar de bicicleta soltando o guidão e pedalando com as mãos livres.

 

No momento da descida, o delegado de polícia era o senhor Dantas Brasil, o Jabá, outro militar que tinha grande respeito em Alenquer. Aquilo fez com que o delegado Dantas Brasil mandasse buscar o rapaz com a sua bicicleta.

 

Como o rapaz, andando pelas ruas da cidade, estava mostrando que não era mais preciso uso do guidão da bicicleta, a peça foi imediatamente retirada e a bicicleta – já sem o guidão – devolvida ao dono.

 

A história teve grande repercussão e ganhou diferentes versões, como a contada no início deste capítulo, com a retirada do pneu dianteiro. Nina ainda conta que a história teve mais outra versão, que também é outra lenda, contada na Rádio 94 FM, de Santarém, pelo apresentador Domingos Campos, o Dodô, famoso pelo programa A Hora do Brega.

 

Dodô contava em seu programa que um repórter de Alenquer o comunicava que o sargento Nina tinha mandado retirar o pneu dianteiro de uma motocicleta, ao ver um condutor empinando o seu veículo na rua.

 

Sendo lenda ou não, percebeu-se a dimensão que era da importância do sargento para o município através de seus trabalhos na segurança pública, ao ponto de surgirem narrativas em torno de sua figura.

 

 

Interferências de autoridades nos trabalhos do sargento

Era comum sargento Nina e sua equipe baterem nas pessoas detidas antes de serem jogadas na viatura e levadas para a delegacia. Afinal, ou estavam cometendo crimes ou mesmo estavam reagindo à prisão diante dos militares.

 

As pessoas que eram detidas estavam se incomodando muito com isso. Logo, assim que eram liberadas do xadrez, passaram a denunciar Nina ao juiz e ao promotor de Alenquer.

 

Com as denúncias, o promotor chamou a atenção do sargento, para que não batesse mais nas pessoas que eram detidas.

 

Mas Nina não se calou e disse-lhe: “Me admiro do senhor, que é autoridade e dá apoio para vagabundo, enquanto a gente faz o nosso trabalho. Faz o seguinte: saia numa ronda conosco pra ver como é o serviço da polícia”.

 

O promotor aceitou e foi junto com os policiais, dentro da viatura, para conhecer os redutos das gangues, os suspeitos realizando seus crimes, fazendo ameaças e sendo detidos.

 

Todo aquele ocorrido era visto pessoalmente pelo promotor, que precisava sair da viatura pra ver, ouvir e sentir de perto todo o ocorrido. Mas ele não aguentou. Pediu que o deixasse em sua casa.

 

O juiz também foi convidado por Nina para testemunhar os serviços policiais noturnos. Saíram às 21h30min e partiram para as ruas mais distantes de Alenquer, nos bairros ditos perigosos e onde as gangues se concentravam.

 

Depois de certo tempo testemunhando as ocorrências e sentindo o perigo bem próximo dele, disse aos policiais: “Já pode me deixar em casa!” Nisso, Nina respondeu-lhe: “Não, doutor, agora que está começando os trabalhos. Já ficando gostoso!” Mas o juiz determinou: “Façam os serviços de vocês. Quando vocês chegarem, só me dizem o que fizeram!”.

 

Havia situações em que sargento Nina assistia a pessoas bebendo nas praças e calçadas e mexendo com as mulheres que passavam por perto. Diante disso, tomava as garrafas de cachaça e jogava toda a bebida no chão. Aquilo tornou-se algo revoltante para os beberrões que, se perderem tempo, tratavam de denunciar imediatamente ao promotor.

 

O sargento foi novamente chamado à promotoria e sendo cobrado a se explicar do porquê de jogar a cachaça dos outros ao chão. Nina, sem perder a postura, falou:

 

“Doutor, faz o seguinte: Manda a sua mulher se arrumar pra passar caminhando num canto desses. A gente ficará de longe, observando, pra ver como eles a tratarão. Se eles não mexerem com ela, você pode me punir”.

 

Certamente que isso não foi a frente. Desta forma, não houve mais interferência de promotor ou de juiz. As reclamações de quem era batido e preso não eram mais acatadas. E os trabalhos dos policiais continuaram normalmente.

 

 

Agente de trânsito Nina: missão além da segurança pública

Assim que ele chegou a Alenquer, no início dos anos 2000, confirmou que muito tinha que ser feito, não era apenas segurança pública, mas também faltava ordem no trânsito, que era notável.

 

As sinalizações não eram respeitadas, motociclistas não usavam capacetes, iam três ou mais pessoas numa motocicleta, sem falar dos altos números de acidentes que ocorriam nas ruas.

 

E esses acidentes foi o que o preocupou muito. Assim que chegou ao município ximango, soube de seis acidentes de trânsito só numa noite.

 

Como não tinha agente de trânsito na cidade, sargento Nina não hesitou em também assumir o controle das fiscalizações nas ruas de veículos. Com rigor, tratou de orientar e, sempre que fosse preciso, multar o motorista e o condutor.

 

Essas fiscalizações e atitudes passaram a incomodar os infratores. Por outro lado, muitas pessoas estavam aprovando, por entender a necessidade e a importância dos trabalhos sendo feitos. Afinal de contas, vidas estavam sendo ceifadas e aquilo tinha que parar.

 

Atritos com autoridades políticas

Sede da Ceplac, em Alenquer, onde funcionou a Câmara Municipal de Alenquer, durante as obras do atual Palácio Legislativo.

Sargento Nina entendia que deveria ser rigoroso com todas as pessoas no trânsito, independentemente de quem fosse, se o indivíduo fosse ou não de boas condições financeiras ou da sua posição no meio social.

 

Ao ver um rapaz conduzindo moto sem capacete em Alenquer, determinou que ele parasse e imediatamente mandou prender a moto, levando para o pátio da delegacia. O sargento nem imaginava que aquele rapaz era filho de um vereador.

 

Numa conversa, esse filho do vereador estava com outra pessoa, na travessa Lauro Sodré, no qual comentou que seu pai iria biucar a moto presa. “Pelo que eu sei e conheço a pessoa que está aí tomando conta do trânsito, teu pai não vai trazer a moto”, disse a outra pessoa.

 

Mas o rapaz insistiu: “Ah, mas o papai é vereador e vai trazer sim!”. Logo, a outra pessoa assim encerrou a conversa: “Então vamos ver!”.

 

Vereador indo à delegacia solicitar a moto do filho

Assim que o vereador chegou à delegacia, dirigiu-se ao sargento Nina:

Vim aqui buscar a moto do meu filho que você prendeu.

O senhor veio buscar a moto do seu filho? – Nina logo o ironizou O que o senhor é, afinal? O senhor é o Comandante Geral da Polícia?

Não! – respondeu o vereador.

O senhor é o Secretário de Segurança deste Estado?

Não.

O senhor é comandante da CPR1?

Não.

O senhor é comandante do 3º BPM?

Não.

Então o senhor não vai levar, porque quem poderia chegar aqui e dizer que ia levar a moto seriam essas pessoas.

Mas eu sou vereador!

O senhor é o quê?

Sou vereador!

Poxa, me respeita! Sou filho dessa cidade e exijo respeito! Porque pra mim o filho do vereador tem o mesmo direito e dever do filho do pescador. Não vou liberar. Vai buscar no Ciretran, que vou mandar pra lá.

 

● Câmara de Vereadores pede explicações ao sargento

Depois desse acontecido, o vereador fez queixa na Câmara de Vereadores, acusando Nina de o ter desmoralizado. Com isso, a casa legislativa chamou o militar para que se explicasse sobre a denúncia.

 

Na época, a câmara funcionava na sede da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), na rua Rosomiro Batista com travessa Colombiano Marvão, no Centro, enquanto o prédio próprio estava em construção, na rua José Leite de Melo, próximo à antiga pista do desativado aeroporto da cidade.

 

A repercussão pela cidade sobre esse chamado dos vereadores foi grande. Muitas pessoas fizeram questão de comparecer à sessão para ver no que resultaria aquela polêmica.

 

Sargento Nina posicionou-se no púlpito, segurando um exemplar da Constituição Federal de 1988, preparado para o que falaria:

Confirmo tudo o que falei ao vereador. Mas não o desmoralizei, porque muito me admiro de vocês, que sabem que na Constituição, no seu artigo 5º, que diz que todos são iguais perante a lei! Aqui não diz que filho de vereador é melhor que ninguém. Prendi a moto porque o rapaz que a conduzia estava cometendo uma infração!

 

Depois dessas e outras palavras, o público presente, assim como os vereadores, aplaudiu a postura do sargento.

 

● Sargento Nina multa outros vereadores

Mas logo surgiu outro episódio. Nina multou um vereador que estava dirigindo na contramão. Revoltado, o legislador o desafiou, querendo saber se ele tinha coragem de multar a sua moto, também a conduzindo na contramão. Não teve conversa. Assim que o sargento viu esse vereador cometendo infração, foi logo multado.

 

Não somente esse, como outros vereadores, que andavam de moto pela cidade sem capacete e levando pessoas na garupa também sem o acessório. O militar não tinha medo e os punia imediatamente.

 

Novamente foi chamado para se explicar à câmara, sempre com o público em peso, que o aplaudia depois de seu pronunciamento e, consequentemente, obrigava os legisladores para o aplaudirem também

 

Se eu fosse o senhor, não ia mais à Câmara. – comentou um PM.

Por quê? – quis saber Nina.

Todas as vezes que vai lá, o senhor esculhamba os vereadores e, no fim, eles batem palmas e dizem que o senhor está certo.

É por isso que vou, porque tenho moral pra ir lá e responder! – concluiu o sargento.

 

● “Pedido da cabeça” do sargento

Percebendo que Nina punia os vereadores sem nenhuma cerimônia, por conta das infrações por eles cometidas, um dos partidos em Alenquer “pediu a cabeça” do militar, assinando um documento para que fosse feita a transferência dele para outra cidade.

 

Entretanto, um grupo de cinco advogados assinaram um abaixo-assinado para não o tirarem da cidade, alegando que sargento Nina estivesse fazendo um correto. O próprio sargento nem imaginava da existência desse abaixo-assinado quando estava sendo preparado.

 

Dessa forma, com apoio dos advogados e do Poder Judiciário, Nina continuou seus trabalhos. Se comparado com os dias atuais, na época, os policiais trabalhavam por muito mais tempo, não usavam coletes a prova de balas, por exemplo, correndo mais risco de vida e ainda ganhavam muito pouco.

 

Outra curiosidade relembrada até pelos moradores de Alenquer era que Nina não permitia quaisquer grupos de pessoas reunidas nas praças públicas, ruas e esquinas reunidas nas altas horas da noite. Ele mandava as pessoas saírem dali imediatamente, como forma de reforçar a ordem na cidade.

 

Era uma saga intensa, combatendo a criminalidade e as infrações no município, de forma heroica e sem medo do que podia acontecer de pior.

 

Funcionário na administração pública do Município

Sargento Nina trabalhou no Matadouro Municipal, no governo de Dr. Farias.

● Administrador do Matadouro e fiscal do terminal hidroviário

Sargento Nina comandou as missões no policiamento até 2002. Mas três anos depois foi indicado para outra missão: trabalhar no governo de Cleóstenes Farias do Valle, o Dr. Farias.

 

Quem o indicou foi o político Manoel Leite. Mas Sargento Nina só aceitaria o cargo caso tivesse autonomia no setor onde fosse trabalhar, sem interferência de ninguém, nem mesmo do gestor. Logo foi aceito.

 

Assim, foi lotado para ser o administrador do Matadouro da cidade. O lugar foi encontrado com poucos equipamentos e com as condições higiênicas bastante precárias. Ou como disse o próprio sargento: estava uma imundície!

 

Sua primeira missão foi organizar o Matadouro para que tivesse condições dignas de se fazer o serviço e levar carnes de qualidade para os açougues.

 

Como já imaginava, teve que lidar com atitudes irresponsáveis de mais políticos, como do pedido do filho de outro vereador de Alenquer, que queria abater seus gados sem GTA (Guia de Trânsito Animal) e fora do horário de expediente.

 

Mesmo sendo funcionário público, Sargento Nina não permitiu. Encarava os políticos que, estando num alto cargo, tentavam se beneficiar de qualquer jeito. Contudo, o militar mostrava firmeza em ser justo e honesto em seus trabalhos na cidade.

 

Depois, no mesmo governo, foi o fiscal de tributação do Terminal Hidroviário Sábato Antônio Vallinoto, recém-construído. Atuou no serviço até o final do mandato de Dr. Farias, em 2008, sem perder a sua honestidade e mostrando que era possível trabalhar para o povo sem se vender para propina.

 

Depois que a gestão se encerrou, ainda trabalhou mais três anos na prefeitura da cidade de Curuá, com o mesmo objetivo de combater as irregularidades no município, especialmente nos órgãos públicos.

 

Subtenente Nina: capítulo final

Subtenente Nina, aos 80 anos de idade, em sua residência.

Sargento Nina chegou a realizar muitas palestras nas escolas, tratando principalmente de temáticas antidrogas e narrava suas experiências de militar, não só na cidade ximanga como em outras cidades.

 

O militar foi também bombeiro de aeródromo e mergulhador. Tem um currículo vasto e de respeito. Casou-se com dona Leonília Maria Bentes Nina, na década de 1970, com quem teve três filhos.

 

Atualmente possui cinco netos (dos quais três são de outro relacionamento) e dois bisnetos

 

Sua história que marcou Alenquer foi na época de primeiro sargento, mas que popularmente era chamado somente de sargento Nina. Sua figura tornou-se icônica na memória dos que testemunharam seus trabalhos.

 

Hoje pode ser considerado um personagem folclórico da cultura popular alenquerense, sempre lembrado e seguido como exemplo incorrupto nas missões militares e na gestão pública. Um personagem que marcou uma geração e que se tornou exemplo de liderança e honestidade.

 

Nilton Rodrigues Nina aposentou-se da carreira militar como subtenente Nina, mas que para sempre será aquele sargento que desafiava a tudo e a todos pelo bem da cidade e das pessoas que nela moravam.

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