DONA INEZ: A BENZEDEIRA DO ENCANTE DE ALENQUER
por Silvan Cardoso
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| São raras as fotos de dona Inez, avessa a esse tipo de registro. Nesta, está com sua filha Josely Carmela (lado direito). (Foto: Reprodução) |
A adolescente, o assediador e a curandeira
Certa vez, uma adolescente percebeu que estava sendo assediada por um vizinho, que já tinha uma idade madura. Toda vez que ela saía de sua casa, ou ele a desejava só por observá-la ou mexia com ela em toda oportunidade que se aproximava da jovem. Mas ela nunca cedia, embora não contasse pra ninguém o que estava acontecendo.
Passou-se
o tempo e o assediador morreu, sem nunca ter conseguido a quem tanto desejava.
A mãe da menina foi ao velório, levando a menina para ver o corpo. A
adolescente, enfim, estava se livrando daquela pessoa que muito a incomodava.
Com o
passar dos dias, a jovem passou a ter alucinações durante as noites. Não
conseguia dormir direito. Ou ouvia vozes incômodas ou enxergava pelos cantos escuros
da casa o rosto do velho assediador.
Todas
as noites aquilo a atormentava bastante, chorando de medo e gritando por
socorro, envolvendo, inclusive, a sua família, que queria entender o porquê
daquela situação que a menina estava passando. Tornou-se um verdadeiro
sofrimento.
Nem
exames médicos ou medicamentos por eles receitados resolviam tal problema. Mas
houve alguém que logo deu uma sugestão: marcar uma consulta com a Dona Inez.
Para lá
levaram a menina, que em seu rosto era notável a dor e o sofrimento. Depois de
muitas pessoas serem atendidas naquela longa fila, foi a vez da adolescente,
que estava diante de uma mulher aparentemente simples, mas profundamente
misteriosa.
Sem
saber da história passada da pequena, a mulher disse que um velho que morrera
estava a perseguindo, que em vida ele tinha feito pacto com São Cipriano e que,
por não conseguir a menina que tanto desejava em vida, passou a procurá-la
depois de morto. Tornou-se um encosto.
Depois que a jovem tomou alguns banhos que a Dona
Inez receitou, finalmente o pesadelo se acabou. As alucinações com o velho
assediador se foram, o encosto se foi e ela pôde dormir tranquilamente nas
noites seguintes.
Dona Inez, personagem ímpar da cultura popular de Alenquer
Dona Inez é um personagem tão importante para a
cultura popular alenquerense que não há quem nunca tenha pelo menos ouvido
falar no seu nome. Uma pessoa que, quem a conhece, guarda dela os mais diversos
tipos de lembranças.
Quem nunca a viu, percebe em torno da sua figura
muitos mistérios. Tantos são os mistérios que, na imaginação de quem nunca a
olhou pessoalmente ou pelo menos viu a sua foto, surgem diversas “Inezes” na
imaginação popular.
Para os que são fiéis à benzedeira, é uma pessoa
admirável, que merece muito respeito. Aos que a ignoram, tratam-na como uma
feiticeira, uma pessoa que “não é de Deus” e que faz coisas maliciosas.
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| Prateleiras com ervas para chás e banhos, receitados por dona Inez. (Foto: Silvan Cardoso) |
Curandeirismo: significado e respeito
Mas afinal, quem é Dona Inez? Para entendê-la,
primeiramente a pessoa precisa ser imparcial quanto à religiosidade. Precisa
ter a mente aberta para ler, assistir, estudar e entender as outras culturas
religiosas.
Curandeirismo é uma prática em que o curandeiro,
recorrendo a forças ocultas, afirma ter a capacidade de curar. Muitos desses
sacerdotes são chamados, dependendo da crença e da região, de benzedores,
médiuns, xamãs, pajés, pais de santo, entre outros.
A complexidade é notável em relação a esse assunto.
Tal complexidade chega a ser ignorada por muitas pessoas, que não se dedicam a
entender os detalhes e a importância de uma crença para aquele fiel que a
segue. Muitos que escutam termos como “pai de santo” ou “benzedor” logo pensam
maldade. Mas nem tudo é o que se imagina ou que se ouve por aí.
Sobre dona Inez: nascimento e identidade
Inez de
Jesus da Costa nasceu em Alenquer no dia 17 de janeiro de 1955. É filha
do pescador Manoel de Jesus da Costa, vulgo Manoel Camisola, e da vaqueira
Idalina de Jesus da Costa, conhecida como Dona Dadá.
É a segunda
de um total de 15 filhos, dos quais hoje em dia apenas 9 continuam vivos.
Manoel Camisola, nascido em 1927 e já falecido, era natural de uma comunidade
de várzea de Alenquer chamada Surubiú-Mirim. Dona Dadá, filha de vaqueiros,
nasceu no histórico bairro Luanda, no mesmo lugar onde mora até hoje, no auge
de seus 91 anos, bastante lúcida. Dona Dadá trabalhou por muito tempo como
vaqueira na comunidade Igarapezinho, na cabeceira do Lago Maracá.
A misteriosa Inez: Uma criança diferente de todas
Ela
sempre foi diferente dos seus irmãos. Ainda na adolescência e moradora da Rua
Dr. Pedro Vicente, no bairro Luanda, morando praticamente na margem do Rio
Surubiú, especialmente na época da cheia, a jovem costumava ver coisas que
nenhuma outra pessoa via.
Algumas
vezes via um barco navegando e, ao dizer à sua mãe do barco que passava no meio
do rio, logo pegava ralho por “inventar coisas”, já que barco nenhum era visto
como ela descrevia. Embora fosse sempre repreendida pelos mais velhos, Inez
continuava a dizer que enxergava animais, ao mesmo tempo em que outras pessoas
não viam.
Além
disso, ela afirmava enxergar pessoas falecidas que a pequena nunca conheceu em
vida. Eram situações que assustavam uns e admiravam outros.
Ainda
na adolescência, Inez costumava ficar vários dias sem se alimentar, consumindo
apenas água. Em muitas situações, desmaiava sobre o chão com o corpo
enrijecido. Em outras ocasiões, a jovem mergulhava nas águas do Rio Surubiú e
sumia nas profundezas das águas.
Seus
parentes e amigos procuravam-na remando na canoa ou mergulhando à procura da
pequena e misteriosa Inez, que preocupava sua família com todas essas
situações, ao mesmo tempo que queria entender o porquê desses comportamentos
estranhos.
Era a
única de todos os irmãos que tinha aquele comportamento. Sua irmã Justina,
nascida depois de Inez, era quem realizava os afazeres de casa enquanto a irmã
mais velha lidava com essas situações diferentes do normal.
Era
comum a família “Jesus da Costa” observar sereias na beira do rio, sereias que
contemplavam os movimentos da natureza. Percebia-se o quanto ela era uma pessoa
especial. E essa especialidade precisava ser valorizada e ser levada a sério.
Idas e vindas ao longo dos tempos
Inez
estudou somente até a 3ª série do 1º grau. E ao compreender o dom que tinha
para ser rezadeira, passou a se dedicar para esse ofício. Foi entre 12 e 16
anos que passou a atender as pessoas que procuravam por soluções em suas vidas.
Inês
foi curada pelo curandeiro conhecido como “Seu Neres”. No caso de Dona Inez,
com as habilidades que tinha, “ser curado” é ser habilitado para exercer o
ofício de rezadeira ou benzedeira. Seu pai de santo foi Aureliano Sousa.
Com 16
ou 17 anos, foi morar em Belém. Retornou a Alenquer aos 25 anos. Com 27 anos,
foi morar no município de Manaus, onde trabalhou na Sharp Corporation. Lá,
conheceu o peruano Juan Rolando Del Castillo Calle, que era mecânico de
máquinas pesadas, com quem ela se casou. Inez passou a se chamar Inez da Costa
Calle.
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| Residência de dona Inez. (Foto: Silvan Cardoso) |
De volta a Alenquer, como rezadeira
Voltou
para Alenquer definitivamente quando tinha por volta de 39 anos de idade,
voltando a morar com sua mãe, Dona Dadá, na Luanda. Seu marido passou a ser
conhecido em Alenquer como “Peruano” por conta do seu país de origem.
Na
década de 1990, Inez passou a morar com sua família na Rua José Leite de Melo,
no bairro São Cristóvão. Sua fama de rezadeira sempre cresceu. Muitas pessoas
procuraram-na de vários lugares. Não eram somente pessoas da zona urbana e do
interior de Alenquer, mas passaram também a ir pessoas de Curuá, Óbidos,
Oriximiná, Monte Alegre, Santarém, Manaus, Belém, entre outros lugares. Até
médicos procuraram-na para algumas orientações sobre remédios naturais e certas
doenças.
Como dona Inez enxerga o mundo, segundo seus conhecimentos
Dona
Inez é uma espírita sacaca de linha verde de raízes, que entre as sete linhas
da natureza espírita, atua com encante. Uma benzedeira que estuda todos os dias
a natureza, as folhas e as raízes.
Ela
afirma que o planeta Terra é formado por quatro mundos: o primeiro é o mundo
dos encantes, que fica no fundo do mar. O segundo mundo fica no nível do mar. O
terceiro mundo fica no nível da terra, que é onde vive a atual sociedade. O
quarto mundo, chamado Vênus, e que fica acima do nível da terra, é para onde
vão as pessoas que morrem, à espera do Juízo Final.
Apesar
disso, Dona Inez se diz católica e costuma frequentar as igrejas São Cristóvão,
de bairro homônimo, e Santo Antônio, do Centro. Diferentemente do que muitos
pensam, ela não se põe acima de Deus nem trabalha para seres malignos.
Inez é
uma pessoa que tem Deus como seu alicerce e que as curas realizadas não são
feitas somente por ela, mas pelos espíritos (ou cabocos) que a auxiliam no seu
ofício.
Esses
espíritos, por sua vez, são seres subordinados a Deus, para que se alcance o
poder da cura. Sempre que uma pessoa faz consulta com a rezadeira, todas as
orientações, receitas e garrafadas são feitas conforme dizem os seus cabocos.
Inclusive,
ao atender ou conversar com alguém, as palavras são ditas de acordo com o que
os espíritos orientam. Os ditos espíritos ficam no meio das duas pessoas –
benzedeira e paciente – fazendo parte do referido diálogo.
Como
afirma Dona Inez, além dos cabocos acompanharem o momento da consulta, outros
espíritos vagam pela casa, um fica na porta de entrada recebendo as pessoas,
outros ficam andando pelos quintais e outro fica na entrada do quintal
acompanhando quem se aproxima.
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| Algumas pessoas esperando atendimento com dona Inez. (Foto: Silvan Cardoso) |
Os atendimentos na sua residência
Normalmente são atendimentos de dez pessoas por dia, todos agendados previamente por ligação de telefonia. Quem é responsável por agendar as consultas é seu filho Juan Carlos, que também recebe os pacientes quando chegam à sua casa, organizando por ordem de agendamento.
Na
cidade, os atendimentos são na segunda-feira e no sábado. No interior da
cidade, na Fazenda Coração de Jesus, localizado o Ramal do Escondido, os
atendimentos são nos dias de quarta-feira e quinta-feira.
Na
cidade, os atendimentos iniciam às 08h00. Mas horas antes já tem pessoas
esperando na frente da sua casa. Marcar uma consulta já é a primeira
dificuldade, pois normalmente quando se agenda, só tem vaga disponível para a
outra semana. A segunda dificuldade é esperar. Uma consulta dura no mínimo meia
hora, podendo se estender até uma hora e meia, dependendo do problema do
paciente.
Como o
quintal é grande, as pessoas se espalham no ambiente, cada um sentando onde se
sentir melhor. É servido água e café aos que estão desde cedo esperando.
Dona Inez, de acordo com as pessoas por ela atendidas
É comum
as pessoas conversarem e compartilharem entre si as experiências com a
benzedeira. Nesse ambiente de espera, que costuma ser das 08h00 até o fim da
tarde, surgem amizades e fortalecimento de fé por uma pessoa tão solicitada por
uns ao mesmo que é evitada por outros.
Quando
chega a vez de ser atendido, a alegria toma conta do paciente, que entra com a
certeza da cura. À mesa, Dona Inez, sempre simples na sua maneira de se vestir,
de falar e de tratar as pessoas, lá está sentada com poucos objetos sobre a
cômoda, como um livro de orações, um gel para massagem, um aparelho para medir
pressão, uma Bíblia ou até ramos de plantas medicinais. O paciente conta seu
problema de saúde e ela faz suas orações, sob as orientações dos cabocos.
Apesar
da comunicação com espíritos, Dona Inez não lê Allan Kardec ou outros autores
espíritas. Ela diz gostar de ler a Bíblia, mas somente quando está sozinha.
Além disso, prefere também leituras de poemas, de histórias curtas e piadas. A
leitura é uma das bases do seu conhecimento, não tendo, por tanto, redes
sociais ou aplicativos de comunicação, como WhatsApp.
Ter a
oportunidade de ser atendido ou conversar com Dona Inez é lidar com uma pessoa
que fala de um jeito calmo e cativante. Costuma fazer bordados ao lado de suas
inúmeras plantas medicinais que se encontram no seu quintal.
Sigilosa,
ao sair de sua casa, Dona Inez não se identifica com as pessoas nos lugares
públicos, mas cumprimenta aqueles que a conhecem e que com ela falam. Prefere
mergulhar no anonimato quando está no meio do povo, longe de holofotes e de
câmeras.
Alguns relatos verídicos
Na fila
à espera de atendimentos, normalmente são encontradas pessoas simples, como um
pescador da comunidade Igarapé do Lago, que uma vez Dona Inez descobriu apendicite
nele, tendo depois encaminhado-o a um médico, que fez nele os procedimentos
cirúrgicos e que hoje em dia vai até ela fazer consultas de rotina; pacientes
como um morador da comunidade de várzea São Francisco, que afirmou que ela
descobriu nele infecção urinária e gastrite nervosa.
Até
fiéis de igrejas evangélicas são vistas na fila de espera, muitas vezes a
pedido de pessoas que não podem comparecer, mas que entregam suas fotos e nomes
para as consultas.
Como é
de se esperar, o preconceito também persiste em torno da figura de Dona Inez.
Longe de sua presença, muitas pessoas, normalmente religiosas fanáticas,
agridem-na verbalmente, chamando-a de feiticeira e afirmando que ela “serve ao
demônio”, além de acharem que a rezadeira se acha acima de Deus e que ela
demonstra “ter poderes” para tratar das pessoas.
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| "Casa da mãe de dona Inez", onde mora Idalina de Jesus da Costa, a dona Dadá, com quase 100 anos. (Foto: Silvan Cardoso) |
Dona Inez, personagem importante da cultura popular ximanga
Porém,
ela mesma afirma que tudo o que faz são por meio de orientações dos espíritos,
espíritos esses que são servos de Deus. Dona Inez é, como se vê, a
intermediária entre o sobrenatural e as pessoas que a procuram.
Além do
mais, ela afirma que não usa a maldade com as pessoas, como reverter feitiços
ou tratar de casos de adultérios. Sua missão é ajudar a curar os doentes ou
contribuir, como ela puder, a todos aqueles que estão em grandes dificuldades e
que necessitam de algum auxílio.
Independentemente
do que forem pensar, Dona Inez sempre será uma figura memorável para a cultura
alenquerense, vivendo sob críticas positivas e negativas, além de muitas
dúvidas e de todo um mistério ao lembrar seu nome, de seu trabalho e prol do
bem de todos.

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Eu agradeço muito a Deus
ResponderExcluirE depois de Deus agradeço muito a dona Inês
Pôr eu estar viva e contando história
Devido dê um AVC que sofri