O CÍRIO POR ANINGAL OU LUANDA: UMA CELEBRAÇÃO DE FÉ E DE "COMPETIÇÃO" EM ALENQUER
Silvan Cardoso
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| Círio de Santo Antônio de Alenquer 2022 vindo pelo bairro Aningal (detalhe da carruagem ornamentada pelo artista Paulo Alves). Foto: Diocese de Óbidos. |
Todos os anos, entre os meses de janeiro e abril, há uma pergunta que os alenquerenses costumam fazer entre si sobre a festividade de Santo Antônio de Alenquer: o círio vai passar por qual bairro, Aningal ou Luanda?
Ficou meio que uma “dúvida tradicional” e "competição" sobre uma das maiores festas religiosas da região Oeste do Pará.
O círio de Santo Antônio, que inicia a trezena da festividade, é um dos eventos mais aguardados pelos ximangos, numa época que mais movimenta a cidade.

Círio de Santo Antônio passando pelo bairro Luanda. Foto: G1;

Por qual lado o círio passará?
Diferente de Belém e Santarém, que possuem um percurso fixo em seus círios, em Alenquer, todo ano, uma comunidade católica é definida para se tornar o ponto de partida da tradicional procissão.
Não importa de qual bairro saia, sempre passará ou pelo Luanda ou pelo Aningal, dois dos bairros históricos do município, seguindo até a igreja Santo Antônio, que fica no bairro Centro.
Essa obrigatoriedade de ter que passar pelos dois bairros tradicionais existe devido a geografia de Alenquer. Entre Aningal e Luanda há um morro (ou serra, como os moradores o chamam), que faz com que os itinerários precisem escolher qual lado seguir.
Ou pelo lado direito, onde fica o bairro Aningal, que normalmente o círio seguiria ou pela travessa Lauro Sodré ou pela travessa Sete de Setembro, ou pelo lado esquerdo, no bairro Luanda, onde a procissão precisaria passar ou pela travessa Tiago Serrão ou pela travessa Capitão Eugênio Marques.
Assim, os círios antigos de Santo Antônio passaram a revezar todos os anos: ou saía do bairro luandense, da igreja São Benedito, ou saía do bairro aningalense, da igreja São Sebastião.
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| Vista da igreja matriz de Santo Antônio, a partir do Mirante do Cruzeiro, parte do morro (ou serra) que separa os bairros Aningal e Luanda, dividindo a cidade. Foto: Guia Lugares Turísticos. |
Rivalidade entre os dois lados além da religiosidade
Com o passar dos tempos, novas comunidades foram surgindo e delas o círio teve seus novos pontos de partida. Mas, como para andar por Alenquer desde o porto da cidade é obrigatório passar ou pelo Aningal ou pelo Luanda, certamente o círio precisa passar por um desses lados também. E, como há uma grande rivalidade histórica, que vai muito além da religião entre esses bairros, precisa-se do revezamento.
A região da Luanda, que compreende outros bairros, tem fama de possuir
maior criatividade em realizar as melhores ornamentações de bandeirinhas e
altares ao longo do percurso, deixando o evento mais colorido e mais animado.
Apesar disso, há atritos entre os bairros, que aparentemente vão muito além da
religiosidade e desejam ser o caminho do círio.
Pra quem conhece um pouco da história ximanga, vários elementos mostram essa rivalidade que nunca tem fim: no futebol, o Aningal A.C., do bairro homônimo, tem árduo duelo com o E.C. Internacional, da Luanda; no folclore, Zé Matuto, luandense, e Matutando em Férias, aningalense, disputam entre si o favoritismo.
O sentimento sadio dessa rivalidade – quem diria! – alcança até mesmo um importante evento religioso!
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| Igreja São Benedito, no bairro Luanda. Foto: Site Alenquer Pará. |
Durante a pandemia de Covid-19, o círio, em formato de carreata, passou por dois anos seguidos pelo bairro Luanda, em 2020 e 2021. Isso causou polêmica, já que houve inconformidade por parte dos aningalenses, por não ter acontecido o costumeiro revezamento.
Desde então, nos anos pares o círio tem passado pelo Aningal. Já nos anos ímpares, tem sido pelo Luanda.
O círio de 2026 sairá da igreja São Sebastião, no Aningal. A procissão fará um percurso por trás do morro, que alcançará o bairro Luanda. Logo, neste ano será mais uma "quebra" dos revezamentos ocorridos nos anos anteriores.
Mas isso não é oficial por parte da Paróquia Santo Antônio, não é uma regra a ser seguida. É apenas um acontecimento envolvendo apenas os desejos dos fiéis.
De certa forma, essa “disputa” é marcante na memória e na cultura de muitas gerações ximangas ao longo da história da festividade de Santo Antônio.
| Igreja São Sebastião, no bairro Aningal. Foto: Silvan Cardoso. |



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