NILZA SERIQUE: CENTENÁRIA SANTARENA, ÍCONE DA EDUCAÇÃO E DA CULINÁRIA
por Silvan Cardoso
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| Nilza Serique, no auge dos seus 100 anos, em dezembro de 2025/ Foto: Silvan Cardoso |
Dona Nilza observa da janela
de sua casa, no segundo piso, os movimentos no Centro de Santarém. Quando
passam pessoas conhecidas, sinaliza com a mão, fala para seu filho os nomes
dessas pessoas e começa a relatar de situações, épocas ou qualquer coisa a elas
relacionadas.
No auge dos seus 100 anos, a
janela é sua única vista para o mundo exterior. É a oportunidade para ver e
ouvir os pássaros, os barulhos dos veículos, os passos e as vozes de quem
caminha, as casas vizinhas, a luz do sol, o vento e as lembranças.
Nilza Serique nasceu no dia
03 de outubro de 1925, na vila Boim, em Santarém (PA). Seus pais eram o
marroquino Moisés Júlio Serique e a santarena Ana Sirotheau Serique, que
tiveram um total de 12 filhos. Nilze é a quarta filha.
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| Cômodos históricos de propriedade de dona Nilza, que ainda preserva em sua residência./ Foto: Silvan Cardoso |
Moisés Júlio Serique fez
parte da chamada “terceira geração de judeus marroquinos”, que chegaram à
Amazônia e se embrenharam nas vilas e cidades pequenas, entre as décadas de
1920 e 1950, num período em que a economia amazônica se encontrava numa crise.
Cidades como Alenquer,
Breves, Óbidos, Faro, Oriximiná, Itaituba, Aveiros, Santarém, entre outras,
foram os destinos dos judeus, onde deixaram, como marcas, cemitérios judaicos e
os sobrenomes, tais como Athias, Elmescany, Levy, Bentes, Aguiar e Bemergui,
que se enraizaram nas sociedades dessas cidades amazônicas.
Moisés Júlio alcançou a vila
Boim, onde conheceu a sua mulher, dona Ana, que era católica, e teve com ela os seus filhos.
Eram eles: Mary, Izabel, Rui, Nilza, Benjamim, Ruth, Amadeu, Juarez, Noemi,
Getúlio, Dejalma e Edson.
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| Antigo Grupo Escolar de Santarém, hoje escola Frei Ambrósio, no final da década de 1930./ Foto: Blog Sidney Canto |
Foi professora no colégio
Santa Clara e no grupo escolar Frei Ambrósio. Mas é neste grupo escolar onde é
mais lembrada como educadora. Seus trabalhos como professora seguiram até o ano
de 1951, quando não deu mais continuidade aos seus trabalhos em sala de aula.
Porém, continuou a dar aula em
sua residência, na então travessa 15 de Novembro, no Centro, até o ano de 1955, quando o seu
marido, senhor Manoel da Costa Pereira, o Neném PPC, não permitiu que ela
continuasse nos trabalhos de professora, nem mesmo na própria casa.
Neném PPC trabalhava em
Santarém consertando equipamentos de refrigeração, cofres e consertava até
mesmo armas de fogo. O profissional, no entanto, faleceu no ano de 1993. Anos
depois, sua esposa mudou-se para outro endereço, na travessa Francisco Corrêa, também no Centro,
onde reside há cerca de 30 anos.
Muitas pessoas passaram
pelos ensinos da professora, inclusive alguns ilustres alunos, como Ivair
Chaves, Ércio Bemerguy, Ronan Liberal, Antônia Paixão, Eudenil e Esmeralda
Neves (filhas de Leonel Neves), Rodrigo Maia, Paulo Lisboa, Luis Otávio Campos,
entre outros.
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| Nilza Serique em destaque com seus quitutes na revista Excelsior, no ano de 1942./ Foto: Blog Sidney Canto |
Nilza, então, passou a fazer
serviços voluntários, especialmente ligados à Igreja Católica. Seriam serviços
que beneficiariam a sociedade. Suas habilidades com a culinária seria outra
marca de sua importância como personagem da história de Santarém.
Fez parte da diretoria da
festa de Nossa Senhora da Conceição na década de 1980, além de ter também feito
parte da diretoria do antigo asilo (hoje lar São Vicente de Paulo), junto de João Cardoso e Pedro
Machado.
Era uma filantropa que se
destacava na cidade por suas ações. Muitas pessoas a procuravam para que ela
cozinhasse para determinado evento ou para algum grupo de pessoas que
precisavam de alguma contribuição.
Nilza Serique chegou a
publicar um livro de culinária, intitulado “Prazer em Comer”, que foi lançado
no dia 20 de setembro de 1996. Hoje, a obra é uma raridade e praticamente
desconhecida pelos santarenos.
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| Nilza Serique em foto de família/ Foto: Reprodução |
Embora seja católica, Nilza foi educada com os costumes judaicos, vindos de seu pai, tendo sempre levado a sério a questão da alimentação, evitando, por exemplo, de se alimentar da carne do porco, de frutos do mar, aves de caça, etc. Esse hábito era tratado com todos os membros da sua família.
Além disso, ela era uma
grande incentivadora da leitura de livros. Mostrava o como era importante ter
o hábito de ler, de interpretar e do quanto esse exercício é fundamental para
qualquer pessoa, seja na vida pessoal como profissional.
Nilza Serique também não
gostava de comemorar o próprio aniversário. Era uma pessoa muto reservada.
Entretanto, no ano de 1985, quando faria 60 anos de idade, seu pai preparou-lhe
uma festa surpresa. Não tinha outro jeito senão aceitar a atitude de seu
genitor. Mas também foi a única comemoração que teve.
A única homenagem recebida
em forma de medalha ou certificado por seus trabalhos prestados à sociedade
santarena foi ainda na década de 1980, quando o grupo escolar Frei Ambrósio a
homenageou, ao lado de outras professoras icônicas: Astrea Imbiriba e Teresa
Miléo.
Seus trabalhos filantrópicos
seguiram até 2020, quando tinha aproximadamente 95 anos de idade. Ironicamente,
foi justamente na cozinha de sua casa, lugar onde se destacou na sua história e na sociedade santarena, num acidente doméstico, que ficou impedida
de continuar a sua missão.
Uma mulher que, até então,
nunca tinha adoecido gravemente, foi parada por um acidente, do qual precisou
passar por uma cirurgia e nunca mais pode continuar a fazer o que tanto
gostava.
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| Mesmo aos 100 anos de idade, está sempre sorrindo e atendendo bem as pessoas que a visitam/ Foto: Silvan Cardoso |
Nilza Serique é mãe de
quatro filhos, dos quais tem nove netos, 17 bisnetos e um trineto. Mesmo sem
sair de sua casa atualmente, ainda faz leituras de revistas e jornais, assiste
a programas de TV, escolhe a comida que deseja e é bastante comunicativa.
Conversa bastante, relembra
de sua vida passada e sempre fala com orgulho de seu pai, uma de suas
referências de vida. Nilza era a cozinheira que preparava inúmeros tipos de
pratos, inclusive de guloseimas, como apareceu numa edição da revista Excelsior
de 1942.
Mesmo sem lecionar há 70
anos, sempre foi chamada e lembrada como professora. Por quase sete décadas
realizou grandes contribuições na cidade, eternizando seu nome nas memórias de
muitas pessoas.
Dos 12 irmãos, apenas três
continuam vivos: Nilza, Getúlio e Edson. Todos os 12 alcançaram uma vida
longeva, tendo vivido entre os 80 e 90 anos de idade.
Professora Nilza Serique,
antes tão ativa e andarilha, hoje, sem poder andar como antes, conversa e observa pela janela,
relembrando de tudo o que viveu, de tudo o que ajudou a construir, aos 100 anos
de idade






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