CABECINHA: CRAQUE ALENQUERENSE E AUTOR DE UM DOS "GOLS DO FANTÁSTICO"
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| Cabecinha vestindo a camisa do Sampaio Corrêa, onde fez história. (Fotos: Reprodução) |
Cabecinha estava em certo domingo recordando dos bons tempos que viveu. Nas suas recordações, sorriu por alguns momentos e depois voltou a relembrar. Sua história poderia ter sido bem diferente da que ele construiu ao longo da vida e da carreira, mas tinha que ser mesmo do jeito que ele conquistou.
Foi um jovem sonhador que teve um dos raros acontecimentos de um futebolista profissional alenquerense, que chegou muito longe em sua sede de jogar e de vencer e que, de certa forma, não decepcionou, porém, deixou uma cidadezinha do Baixo Amazonas bastante orgulhosa do craque que teve décadas atrás.
Descendente de portugueses e filho
do senhor Manoel dos Santos Rente e de dona Maria da Glória Barbosa Rente, a promessa
do futebol do norte do Brasil nasceu em Alenquer no dia 30 de novembro de 1951,
batizado com o nome José Luiz de Lima Rente. Mas sua vida o registraria o apelido “Cabecinha” como a identidade de sua trajetória, apelido esse criado pelo seu
amigo Sérgio Fonseca, quando ambos eram crianças.
Todas as manhãs, o pequeno José Luiz entregava pães de casa em casa pelas ruas de Alenquer. Desde criança já trabalhava no ofício de padeiro. Seu pai Manoel Rente era proprietário da saudosa Padaria Nova Aurora, que ficava na frente da cidade.
Mesmo trabalhando
desde criança e tendo que acordar bem cedo para ajudar o pai na padaria,
Cabecinha estudava em outro horário do dia, um esforço que lhe valeu
conhecimento e experiência para toda a vida. Estudou em duas escolas: Fulgêncio
Simões e Santo Antônio. Mas nunca chegaria a concluir o ensino primário. A
paixão do jovem seria mesmo o futebol, atividade que fazia muito bem desde
pequeno nos campos de sua terra natal.
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| Alenquer: Terra natal e lugar onde surgiram seus primeiros dribles. |
Morador do bairro Centro, mostrou suas primeiras habilidades de futebolista promissor em dois
pequenos times amadores pelas ruas e campos alenquerenses: primeiramente jogou
pelo Uniãozinho, criado por Diolando Sarube, time que viu naquela criança uma
rapidez que empolgava os amantes do esporte. Cabecinha jogou também pelo time Flamenguinho, criado por seu pai Manoel Rente e pelo desportista Raimundo Santos, que acompanharam o
crescimento e o fortalecimento de sua capacidade de driblar e alcançar de todas
as formas a meta desejada.
Mas Alenquer estava ficando muito pequena diante de sua grandeza no mundo da bola. Se quisesse evoluir e se tornar o jogador valioso que tanto sonhava, o jovem precisaria sair de sua cidade e ultrapassar fronteiras. Não demorou muito para que isso acontecesse.
Carreira nos times de Santarém
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| Estádio Elinaldo Barbosa, de Santarém, onde Cabecinha faria história nos últimos da década de 1960. |
Em 1968 passou a morar na cidade de Santarém (PA), onde poderia encontrar as próximas oportunidades. Cabecinha passou a jogar pelo São Francisco Futebol Clube no ano de 1969. Era um novo desafio, eram outros rivais e era uma oportunidade de mostrar que suas qualidades como artista da bola não eram por acaso.
Encarou muitos "Rai-Frans", encantou as torcidas do leão santareno e certamente que desagradou muitos torcedores do
pantera mocorongo, sem falar dos títulos municipais conquistados na Pérola do Tapajós. O então estádio Elinaldo Barbosa já estava bastante limitado pra ele. Logo precisaria ir além
do lugar onde até então se encontrava.
Em 1971, o jovem chegava à Belém. Seu destino era o estádio do Baenão para fazer parte de outra família leonina. Cabecinha agora era jogador do Clube do Remo. A Cidade das Mangueiras era o novo palco.
Talvez o nervosismo tivesse a oportunidade de ocupar parte do sentimento de
Cabecinha, mas a vontade de encarar os novos desafios era maior e brilhava em
seus olhos ao perceber que as torcidas estavam ficando maiores para verem a
qualidade do jovem jogador do interior do estado paraense. Encarou "RE-PAs" e fez
parte do elenco campeão do Torneio Norte/Nordeste no mesmo ano que chegou à
Belém.
Foi nesse mesmo ano que
o craque se casaria com Maria Cleuci Gomes Rente, aquela que se tornaria a sua parceira
em todas as ocasiões. Porém, no ano 1974, regressaria para o MAC e retomaria sua saga
no estado maranhense. A partir de 1976, quando seria o mais novo reforço do
Sampaio Corrêa Futebol Clube, Cabecinha escreveria capítulos bastante
expressivos em sua jornada.
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| Time do Sampaio Corrêa: Cabecinha é o primeiro agachado, da esquerda para a direita. |
De cara, no ano de estreia pelo clube (1976), Cabecinha ajudaria o Sampaio Corrêa a conquistar um título do Campeonato Maranhense e também terminaria como artilheiro da competição. Cabecinha brilharia em mais três anos seguidos no Maranhão, conquistando também os estaduais de 1978 e 1980 e se tornando artilheiro nos campeonatos de 1976, de 1979 e de 1980, quando comemoraria seu último título pelo time onde mais se destacou.
Assim como os
paraenses estavam orgulhosos do seu jogador nato, os maranhenses vibravam
inquietos das encantáveis atuações que ele mostrava e de suas jogadas
decisivas.
Sampaio Corrêa fazia parte do grupo D da primeira divisão do Campeonato Brasileiro dessa época, originalmente chamada pela CBF de Taça de Ouro. No domingo de 25 de janeiro, um dos confrontos da primeira fase do Tricolor de Aço era contra o Cruzeiro Esporte Clube em pleno estádio do Mineirão.
Depois que Roberto César fizera o gol do Cruzeiro aos 34 minutos do primeiro tempo, Cabecinha, já no início do segundo tempo, pegaria praticamente do meio de campo uma bola lançada, driblando dois adversários, entre eles o goleiro, fazendo um gol antológico que se tornaria destaque nacional.
O gol de empate do Sampaio Corrêa feito pelo
Cabecinha seria nomeado pelo programa Fantástico, da Rede Globo, como o mais
bonito da rodada e um dos mais lembrados do Brasileirão daquela época. O gol
passou na televisão e o país inteiro assistiu à jogada mágica do alenquerense
em Minas Gerais.
Fim de carreira e retorno ao futebol amador
Ainda em 1981, o alenquerense foi emprestado para o Esporte Clube Noroeste, do estado de São Paulo, onde disputaria o Paulistão. Mas no mesmo ano retornaria ao Sampaio Corrêa. Sua saga no nordeste brasileiro já estava chegando ao fim.
Em 1982, Cabecinha regressou ao Pará, jogando pelo Tuna Luso Brasileira, time de Belém, e, em 1983, encerraria sua carreira profissional jogando no Atlético Clube Izabelense, da cidade de Santa Izabel do Pará.
A partir de 1984 retornaria ao futebol amador, jogando novamente pelo São Francisco, de Santarém. Depois disso, tornar-se-ia técnico de times santarenos, como o próprio São Francisco, além do São Raimundo e do Fluminense, tendo sido também auxiliar técnico e treinador de goleiros.
Cabecinha via que o tempo já tinha passado rapidamente e que sua
história agora corria entre lembranças e sentimentos ao olhar para trás e ver
tudo o que pôde construir. Poderia ter buscado por outras metas, mas foi o
futebol que o fez viver intensamente.
Em sua casa, Cabecinha folheia seus cadernos com recortes de jornais contendo as reportagens que narram e destacam sua gloriosa história esportiva, os times, os gols, os lances e os títulos. Muitas histórias ele deve ter contado aos seus quatro filhos e, sempre que possível, conta aos seus dois netos.
Histórias como a convivência que teve com outros craques brasileiros consagrados, como Júnior, Zico, Roberto Dinamite, Raí e Sócrates, e de revalidades que teve com clubes gigantes que fazem e fizeram parte da elite do futebol nacional.
Cabecinha trabalhou por muitos anos é funcionário público em Santarém, a partir de 1997. Sempre que possível, participa de peladas nos campos da cidade, além de se dedicar à academia, para não perder o ritmo e a forma.
Mas as gerações atuais, vendo-o sempre humilde e aparentemente simples, não imaginam a grandeza do futebolista brasileiro que existiu dentro daquela pessoa que vive nos dias atuais da forma mais comum possível, mas que nunca foi esquecido pelos colegas e pelos clubes onde jogou.

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Parabéns, Cardosinho, pelo belo texto a respeito desse nosso conterrâneo e vizinho, o Cabecinha, que tanto nos orgulhou nos campos de futebol do Brasil.
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